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Nossos Laços

Image by Olga Thelavart

A Jornada Espiritual de Emmanuel e Chico Xavier

1
Expectativa e Mistério

O sol se despediu lentamente do horizonte, pintando o céu com tons de laranja e rosa que se misturavam delicadamente ao azul profundo da calorosa Uberaba. As últimas faíscas de luz dançavam nas nuvens, anunciando a chegada de uma noite promissora. Uma brisa suave soprava o rosto de Chico, trazendo consigo o perfume do verão, que impregnava o ar com notas florais e o sutil aroma da terra aquecida pelo dia.

À medida que as sombras se estendiam pelo cenário, Chico limpava as lentes grossas de seus óculos e o recolocava no rosto puxando a armação para bem perto dos olhos. Ali, da porta da sala de orações da casa da prece, observava a tarde caindo.  A temperatura persistia, teimando em abandonar os resquícios do calor do dia. O ambiente exalava uma sensação de expectativa, como se o próprio crepúsculo guardasse segredos a serem revelados. As folhas das árvores do quintal, imersas em tons esverdeados, sussurravam prelúdios suaves e caiam em um banco de praça que fica no jardim da casa, enquanto os grilos afinavam seus violinos noturnos, preparando-se para a sinfonia que em breve preencheria o ar.

Chico estava cansado de mais um dia cheio de atendimentos, seu olhar se perdeu no céu enquanto sentiu o cheiro do café feito por Dona Dinorah. 

Dona Dinorah era uma presença constante e acolhedora na vida de Chico Xavier, uma figura maternal cuja bondade era tão abundante quanto seu talento na cozinha. De estatura baixa e figura roliça, seus olhos pequenos e brilhantes sempre refletiam uma mistura de ternura e determinação. Seu rosto, marcado por rugas que contavam histórias de uma vida cheia de trabalho e devoção, iluminava-se com um sorriso caloroso sempre que encontrava Chico.

Suas mãos, embora ásperas pelo trabalho duro, moviam-se com uma graça surpreendente enquanto preparava as refeições. A cozinha, sob seu comando, transformava-se num refúgio de aromas reconfortantes e sabores deliciosos. Cada prato que saía de suas mãos era um ato de amor, desde o simples arroz com feijão até o doce de abóbora que Chico tanto gostava.

Dona Dinorah tinha uma maneira única de cuidar de Chico. Mesmo quando estava ocupada com suas tarefas, ela sempre encontrava tempo para uma palavra de encorajamento ou uma piada para levantar o espírito. Sua risada era contagiante, um som que enchia a casa de vida e alegria. E Chico, por sua vez, apreciava profundamente a presença dela, encontrando em Dona Dinorah não apenas uma cozinheira excepcional, mas uma amiga leal e uma segunda mãe.

A generosidade de Dona Dinorah estendia-se além da comida. Sempre pronta a ajudar quem precisasse, ela era conhecida por sua disposição em ouvir e oferecer um ombro amigo. Na simplicidade de seus gestos e na profundidade de seu carinho, Dona Dinorah era uma benção silenciosa, um pilar de amor e apoio a Chico em sua jornada.

Em meio a essa transição entre a luz e a escuridão, Chico via o mundo suspenso, capturado no limiar de possibilidades. Era uma noite que prometia histórias por revelar, pois Emmanuel, seu mentor espiritual e amigo, o avisou que aquela seria uma noite especial em seus trabalhos. 

Chico lembrou da noite anterior quando, no silêncio sereno do seu aposento, Emmanuel fixou seus olhos profundos nos dele de uma forma nunca feita, tinha uma expressão carregada de significado. Um sutil sorriso dançava nos lábios do guia espiritual, enquanto suas palavras pairavam no ar como promessas misteriosas. Chico sentiu a energia da sala mudar, como se o universo, por um breve instante, retivesse a própria respiração. 

- Chico - começou Emmanuel com um tom grave e solene, - em nosso trabalho noturno de amanhã, compartilharei contigo um grande segredo, uma revelação que modificou para sempre a forma como vivi minha existência.

A curiosidade floresceu nos olhos de Chico, como uma chama prestes a incendiar a escuridão. Ele, envolvido pelo suspense, mal conseguiu concentrar-se nos trabalhos do dia, contando as horas para chegar à noite e desvendar esse enigma que prometia transformar sua jornada espiritual.

No calor persistente da atmosfera, o início de algo extraordinário parecia iminente, aguardando apenas o momento certo para se desdobrar.

Chico foi desviado de seus pensamentos pelo canto de um rouxinol que anunciava o fim do dia. Caminhou até o jardim, onde os raios do calor intenso do dia fizeram um botão de rosa inclinar-se ternamente em direção à terra. Ali, ergueu a flor como quem acaricia a essência da natureza, desvelando em gestos suaves o perfume oculto entre as pétalas.

À sombra de árvores frondosas e carregadas de história no quintal da Casa do Caminho, revelava-se um santuário de serenidade e espiritualidade. O solo, acarpetado por uma grama verde e macia, convidou o calmo Francisco a descalçar os sapatos e conectar-se com a terra sob seus pés descalços.

Ele estava no jardim da Casa da Prece, o local onde realizava seus atendimentos espirituais. Um cenário de peregrinação para milhares de pessoas que buscavam em Chico a esperança de reencontrar seus entes queridos.

O jardim meticulosamente cuidado, é um testemunho da colaboração entre humanos e natureza. As alamandas de cores vibrantes se erguiam em harmonia. As pétalas das rosas, tão amadas por Chico, ondulavam suavemente sob a brisa acolhedora. Entre os canteiros, pequenos bancos de madeira convidavam quem ali frequentasse a sentar-se e contemplar a beleza serena que emanava do coração daquele recanto espiritual.

Ao longo dos limites do quintal, muros na cor azul claro serviam como guardiões silenciosos, suas manchas causadas pela chuva formavam imagens celestiais de acordo com a imaginação de quem as olhava e sussurravam mensagens de paciência e sabedoria. 

Entre os canteiros de grama, corriam pequenas calçadas de cimento cuidadosamente pintadas de cinza escuro, mostrando o caminho para a entrada da sala de passes e os banheiros.

A luz do sol, filtrada pelas folhagens da pequena aroeira ao centro, criava padrões de sombra dançantes no chão, como se cada raio fosse uma benção enviada de planos superiores. 

Chico pensou quantas e quantas horas de trabalho e preces dedicou naquele lugar. Tornou-se o jardim então mais do que um lugar físico? Era um portal para dimensões espirituais, onde a presença do divino se manifestava na simplicidade da natureza e na compaixão compartilhada entre aqueles que ali buscavam consolo e inspiração?

- Seu Chico! - Chamou do portão Inácio, o motorista que iria levá-lo para casa.

Inácio, o motorista de Chico Xavier, é um homem de estatura mediana, com aproximadamente 1,70 metros de altura. Seus 45 anos de vida moldaram um rosto afável e acolhedor, onde linhas de experiência e sorrisos frequentes se entrelaçam harmoniosamente. Uma calvície sutil adorna o topo de sua cabeça, mas é evidente que Inácio carrega essa característica com confiança e resignação.

Chico acenou com a mão pedindo a Inácio para esperar um pouquinho, foi até a pequena cozinha onde Dinorah passava o último café do dia para Chico levar. As paredes da pequena cozinha desgastadas pelo tempo contavam histórias silenciosas, enquanto o chão de cerâmica testemunhava incontáveis passos de voluntários dedicados. Dona Dinorah estava coando o café diretamente na garrafa térmica. O cheiro envolvente de café recém-preparado dançava no ar e se espalhava, acolhedor e tentador. Chico encosta a mão no ombro dela e diz:

- Dinorah, eu não sei o que seria de mim sem esse seu café. - Aproximando-se do coador de pano, dá uma profunda aspirada no vapor que sobe enchendo seu nariz com um aroma maravilhoso - "Sem ele, eu fico mais devagar do que tartaruga em dia de folga!

Dinorah ergue o coador com suavidade, destilando as últimas gotas do café coado em uma xícara sobre a pia. Sem hesitar, ela oferece a Chico, que, com uma naturalidade encantadora, leva a xícara aos lábios, deleitando-se com um gole audível que reverbera na cozinha. 

Com ternura, Chico desliza a garrafa de café sob o braço, como quem abraça a promessa de um líquido vigoroso. Ele envia aquele pequeno sorriso antes de sair da cozinha.

O sorriso de Chico Xavier era uma marca indelével de sua alma bondosa e resiliente. Sempre presente em seu rosto, irradiava uma serenidade profunda que transcendia às circunstâncias. Mesmo nos momentos de dor ou diante de más notícias, aquele sorriso humilde e delicado permanecia, como um farol de esperança em meio às tempestades da vida. Não era apenas um gesto físico, mas uma expressão genuína de sua fé inabalável e de seu amor pelo próximo.

Abandonando a cozinha, ele dirige-se ao portão, onde Inácio o aguarda, dedicado a abrir a porta do carro. Chico, acomoda-se com serenidade no banco traseiro do antigo diplomata azul, entrega-se à jornada que se inicia. Inácio, assumindo a posição de condutor, dá vida ao veículo, movendo-se com a cadência melódica de um encontro marcado com o destino.

 

 

 

 

 

No trajeto de volta para casa, Chico observa o cenário deslizando além da janela do carro, enquanto sua mente alça voos distantes, tentando decifrar o mistério que Emmanuel prometeu revelar naquela noite. A curiosidade, essa virtude intrínseca ao ser humano, encontra em Chico um ardor singular. O mineiro, dotado de uma curiosidade que ultrapassa os limites comuns, embarca em uma jornada mental, tecendo inúmeras conjecturas acerca do segredo aguardado, perdendo-se em um intricado emaranhado de possibilidades e expectativas.

Distraído pelos devaneios que povoavam sua mente, Chico mal notou a chegada em casa, tal era a imersão em suas reflexões sobre a noite iminente. Quando finalmente despertou para o entorno, Inácio já se ocupava em abrir a porta do carro diante de sua residência. A noite havia descido e, ansioso, Chico apressou-se em adentrar, ávido por se preparar, e quem sabe, encontrar Emmanuel prestes a revelar o tão aguardado segredo.

Uma residência simples de interior, a casa de Chico Xavier, se revela como um poema de branco e azul, envolta em simplicidade entrelaçada com a beleza da natureza. Móveis de madeira, testemunhas do tempo, contam histórias silenciosas em uma sala adornada com o calor do chão de madeira e móveis antigos. No canto, uma cadeira de vime com almofada e travesseiro, como um cantinho de descanso onde Chico repousa os sonhos da jornada.

Ao fundo da sala, a porta que se abre para a cozinha, pintada em calmos tons de azul claro, tem janelas que tingem o ambiente com um azul mais intenso. No centro da cozinha, uma mesa simples de seis cadeiras, um pequeno fogão e uma geladeira, testemunhas do cotidiano que ecoa simplicidade e acolhimento. Dali, portas conduzem a dois quartos, um de Chico, um guardião de histórias, e outro destinado a preservar lembranças.

O quarto de Chico é uma ode à humildade, com uma pequena cama de solteiro encostada na parede, iluminada pela luz suave de uma pequena janela logo acima do leito. Ao lado, uma escrivaninha e um antiquado guarda-roupa de madeira escura, custódia de vestígios de uma vida dedicada ao serviço espiritual. Na parede, a presença serena de um quadro de Jesus Cristo e um pequeno tapete que acolhe os passos que se dirigem à cama.

Na parede oposta onde fica a mesa, uma estreita porta revela um banheiro íntimo, onde um vaso, uma pequena pia e um chuveiro resguardado por uma cortina de plástico são testemunhas da singeleza cotidiana. Na parede, do lado de fora do quarto, uma carta escrita pela mão de Chico anuncia a transitoriedade do aposento com os seguintes dizeres pela caligrafia de Chico:

“Se algum amigo espiritual porventura estiver determinado a me proporcionar a alegria de uma visita, aviso que estarei nesta noite, somente hoje, no quarto à esquerda, onde estarei com a satisfação de receber. A mudança no meu dormitório foi necessária a fim de se promover consertos no sistema de água. Amanhã já voltarei ao meu próprio aposento. Jesus nos abençoe como sempre. Muito grato, Chico Xavier.”

A carta fora escrita duas semanas atrás, quando o quarto estava em reforma, mas Chico esqueceu de tirá-la da parede. Quem sabe o esquecimento teria sido proposital para conseguir ter alguma noite de um sono tranquilo e ininterrupto.

Ele apressou o banho que geralmente tardava um pouco a tomar, colocou seu pijama listrado, um mosaico de azuis que abraçavam o claro e o escuro. Nos pés, calçou o chinelo desgastado, mas com a familiaridade que proporciona conforto, e dirigiu-se à cozinha para o jantar. Na mesa, aguardava-o uma marmita recheada com as sobras do almoço, um manjar preparado com carinho por Dinorah. Seu prato predileto: frango de panela acompanhado pela irresistível farofa de abobrinha. 

Acomodou-se, esforçando-se para dissimular a ansiedade que o envolvia. Pegou a moringa de barro disposta no centro da mesa e encheu-a com água fresca, proporcionando um alívio bem-vindo no calor escaldante de Uberaba. Retirou o pano que envolvia a marmita de alumínio, iniciando sua refeição. A expectativa pela chegada de Emmanuel era tão intensa que Chico, absorto em pensamentos sobre o que seu mentor tinha a revelar, esqueceu-se completamente de esquentar a marmita e acabou comendo-a fria, sem nem perceber. Seus pensamentos estavam distantes, completamente absorvidos pelo que estava por vir.

Utilizou o pano que envolvia a marmita para limpar os lábios, pegou a garrafa de café e colocou um pouco em um copo simples de vidro que imediatamente ficou suado com o vapor. Bebeu sem nem dar muita importância ao saboroso gosto que sempre deixava em sua boca. Levantou e foi escovar os dentes esquecendo-se de retirar as sobras de comida da mesa e levar a louça suja até a pia. Nunca fez isso, mas essa noite em especial, seus pensamentos estavam distantes de tudo. Fez a diária e pontual higiene bucal, pegou a garrafa de café na cozinha e o copo de vidro. 

Dirigiu-se ao quarto, depositando a garrafa e o copo cuidadosamente sobre a escrivaninha que testemunhara tantas noites de psicografia com Emmanuel. Acomodou-se na cadeira que sempre lhe oferecera apoio em jornadas espirituais prolongadas. Inspirou profundamente, buscando conter a ansiedade que pulsava em seu peito, enquanto aguardava a chegada de Emmanuel.

 


 

 

 

Chico estava inquieto, quase incapaz de ficar parado, enquanto aguardava ansiosamente a chegada de Emmanuel. Naquela noite, a espera parecia interminável, e a ausência de seu amigo espiritual se prolongava mais do que o de costume. Cada tic-tac do relógio na parede soava como um martelo, intensificando sua ansiedade.

Finalmente, uma brisa suave entrou pela janela aberta, acariciando seu rosto e fazendo as cortinas balançarem levemente. Chico soube, naquele instante, que Emmanuel estava próximo. Seu coração deu um salto, ele respirou fundo e abriu um pequeno sorriso, os olhos brilhando de expectativa.

Quando Emmanuel finalmente se materializou diante dele, a sala pareceu iluminar-se com uma luz suave e reconfortante.

- Boa noite, Chico - disse Emmanuel com um sorriso sereno.

- Puxa, você demorou a vir hoje - disse Chico em um tom que tentava disfarçar a ansiedade.

- Cheguei no mesmo horário como sempre, sabe que somos pontuais na espiritualidade, foi tua ansiedade que fez as horas tardarem a passar – respondeu Emmanuel. 

Chico pensou em falar algo, mas, durante a puxada da respiração, Emmanuel percebeu a ansiedade no rosto de seu amigo, assentiu com um olhar compreensivo.

- Vamos, então, iniciar os trabalhos. Há muito para ser revelado e aprendido esta noite.

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A ansiedade e a esperança

   3        
Dois Amigos

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